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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O FADO DO ESPELHO QUEBRADO

 


                                           MONÓLOGO


O céu permanece em silêncio. Um azul gélido, indiferente ao peso dos nossos dias.

Caminho por entre os escombros do que achei que era eterno, sentindo o frio desta solidão que me aperta o peito.

 Olho para as minhas mãos calejadas, para a poeira que cobre os meus sapatos, e percebo que a dor não é um acidente; é o próprio roteiro. Dizem que há um propósito no açoite, que o chicote educa a alma. Tolice dos que tentam justificar o próprio sofrimento.

Na verdade, sei que é certo Deus mandar o castigo para que haja o arrependimento.

Mas o que resta quando o arrependimento chega e o castigo continua?

A noite desce e com ela vem o peso de todas as promessas quebradas. Olho para trás, para a história que nos contaram, para o sangue derramado no topo daquela colina esquecida.

Se o sacrifício foi supremo, por que a agonia do mundo ainda é tão palpável? Por que o peso do pecado ainda esmaga os ombros de quem mal consegue respirar?

Fito a escuridão e pergunto aos ventos: Será que do calvário Cristo realmente levou todas as maldições? Se levou, o mundo foi esquecido no balanço dessa conta, pois o veneno ainda corre em nossas veias.

Não há braço divino que se estenda para nos tirar da lama. Estamos sozinhos nesta arena de poeira e carne. Gritamos por socorro a deuses de pedra, esperando que estátuas vertam lágrimas que nós mesmos secamos. No fim, quando a noite se torna longa demais, o espelho nos devolve a única verdade cruel: O homem é o seu próprio salvador.


Somos nós que cavamos as covas e nós que tentamos, em vão, sair delas com as unhas sangrando. Somos os nossos próprios juízes e os nossos próprios carrascos.

E que justiça há nesta terra condenada? Olho para os lados e vejo o banquete dos cruéis enquanto os inocentes devoram as próprias lágrimas. Uns nascem coroados de ouro, outros com a mortalha já costurada na pele. A balança está quebrada desde o início dos tempos. Que critério rege essa distribuição de miséria?

No desespero da minha fraqueza, a minha voz racha ao questionar o infinito: Porque Deus deu tudo para alguns e o nada para os outros?

Não há resposta, apenas o eco da minha própria indignação batendo nas paredes vazias do universo.

Buscamos sinais no voo dos pássaros, na forma das nuvens, no brilho efêmero de uma estrela que já morreu há milênios. Queremos desesperadamente acreditar que existe um tecido invisível que une os nossos retalhos de dor.

Mas as mãos voltam vazias. A lamparina apaga. Onde se esconde a força que move os crentes? Onde está o mistério da fé? Talvez o mistério seja apenas a nossa insistência em criar luz onde só existe o breu.

Resta-nos o fim. A última paragem onde a carne desiste e o sopro cessa. Não há glória no desfecho, apenas a gélida simetria da terra que nos consome. Quando o último dia chegar e a carne se refizer do pó, seremos apenas reflexos vazios de uma divindade que nos moldou para a dor.

 

Na frieza daquele instante derradeiro, cumprirei o meu fado de espelho quebrado: Na ressurreição dos corpos serei igual a Cristo.

Igualmente ferido, igualmente esquecido, pregado ao destino de uma criação que nunca soube o que é o amor.

E assim se fecha o ciclo. O sopro que nos deu vida retorna ao vácuo, sem respostas, sem aplausos, sem redenção. Fomos feitos de barro apenas para que pudéssemos rachar sob o sol da existência.

Se há um Deus lá fora, que ele olhe para os cacos que restaram e tente decifrar o seu próprio rosto no que sobrou de nós.

Autor: Herbert Lago Castelo Branco

 

 

 

 

 

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