Mas a história capota e a memória, às vezes, falha
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| Poeta e Escritor Herbert Lago |
Vi a
primavera brotar no asfalto cinzento quando vivemos a transição para a democracia. Que sopro de vida foi aquele! A
promessa de que o amanhã pertenceria ao debate, não ao caldeirão dos quartéis.
Anos depois, caminhei sob o sol de um governo
socialdemocrata, onde o Estado estendeu as mãos aos invisíveis, onde o
livro pesou mais que a bala e o filho do operário dividiu o banco da universidade.
Parecia que o Brasil finalmente tinha pressa de futuro.
Mas a história capota e a
memória, às vezes, falha.
Recentemente,
a escuridão voltou a bater à nossa porta, fantasiada de messianismo. Vivi o
sufoco de um governo de traços
fascistas, que trocou a empatia pelo deboche, a ciência pelo
obscurantismo e a cultura pelo alvo de tiro. Assisti, estarrecido, à barbárie
máxima: a tentativa de golpe de Estado,
o desespero violento daqueles que, após perderem a eleição de forma legítima,
tentaram quebrar os espelhos da nossa jovem República.
Hoje, o
perigo não passou. Ele se reorganiza. Uma onda de extrema-direita e neofascista ameaça retornar com
toda a força, alimentada pelo ódio digital, pelo ressentimento e pela mentira
sistemática.
O risco
de voltarmos para trás não é um fantasma abstrato; é uma promessa de atraso civilizatório. Voltar a esse
passado recente significa:
O
silenciamento da dissidência, onde a arte e o pensamento livre voltam a ser
visto como inimigos do Estado.
A destruição
das redes de proteção social, aprofundando a fome e a desigualdade sob o
pretexto de uma falsa liberdade econômico.
O
isolamento do mundo, transformando o pais novamente em um pária internacional
que nega o clima, a ciência e os direitos humanos.
A erosão
definitiva das instituições, de modo que a próxima tentativa de golpe não seja
apenas um ensaio, mas um ato final.
Não há
poesia na tirania. O fascismo não constrói: ele apenas consome o que a
democracia demorou décadas para plantar. Como poeta que viu o pior e o melhor
deste país, recuso-me a calar. A liberdade é um exercício diário e o voto é a
nossa trincheira contra o retrocesso. Que o meu verso seja o escudo contra o
autoritarismo e o farol a guiar o amanhã:
Não há
beleza no autoritarismo,
Não há
poesia no fascismo,
Para que
o passado não vire o nosso futuro,
Ditadura,
nunca mais!
Poeta e
escritor

