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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O Peso do Amanhã: Manifesto de um Verso Insubmisso

                                                  Mas a história capota e a memória, às vezes, falha

Poeta e Escritor Herbert Lago

    Escrevo com a urgência de quem carrega o tempo na pele. Sou o rapaz que, chegou em Brasília com pouco mais de vinte anos e o peito cheio de metáforas, viu a sombra das baionetas silenciar as esquinas. Aprendi cedo que, sob o tacão de uma ditadura militar, a poesia é artigo de contrabando e a palavra, um risco de morte. Sobrevivemos. Sangramos, mas sobrevivemos.

Vi a primavera brotar no asfalto cinzento quando vivemos a transição para a democracia. Que sopro de vida foi aquele! A promessa de que o amanhã pertenceria ao debate, não ao caldeirão dos quartéis. Anos depois, caminhei sob o sol de um governo socialdemocrata, onde o Estado estendeu as mãos aos invisíveis, onde o livro pesou mais que a bala e o filho do operário dividiu o banco da universidade. Parecia que o Brasil finalmente tinha pressa de futuro.

Mas a história capota e a memória, às vezes, falha.

Recentemente, a escuridão voltou a bater à nossa porta, fantasiada de messianismo. Vivi o sufoco de um governo de traços fascistas, que trocou a empatia pelo deboche, a ciência pelo obscurantismo e a cultura pelo alvo de tiro. Assisti, estarrecido, à barbárie máxima: a tentativa de golpe de Estado, o desespero violento daqueles que, após perderem a eleição de forma legítima, tentaram quebrar os espelhos da nossa jovem República.

Hoje, o perigo não passou. Ele se reorganiza. Uma onda de extrema-direita e neofascista ameaça retornar com toda a força, alimentada pelo ódio digital, pelo ressentimento e pela mentira sistemática.

O risco de voltarmos para trás não é um fantasma abstrato; é uma promessa de atraso civilizatório. Voltar a esse passado recente significa:

O silenciamento da dissidência, onde a arte e o pensamento livre voltam a ser visto como inimigos do Estado.

A destruição das redes de proteção social, aprofundando a fome e a desigualdade sob o pretexto de uma falsa liberdade econômico.

O isolamento do mundo, transformando o pais novamente em um pária internacional que nega o clima, a ciência e os direitos humanos.

A erosão definitiva das instituições, de modo que a próxima tentativa de golpe não seja apenas um ensaio, mas um ato final.

Não há poesia na tirania. O fascismo não constrói: ele apenas consome o que a democracia demorou décadas para plantar. Como poeta que viu o pior e o melhor deste país, recuso-me a calar. A liberdade é um exercício diário e o voto é a nossa trincheira contra o retrocesso. Que o meu verso seja o escudo contra o autoritarismo e o farol a guiar o amanhã:

Não há beleza no autoritarismo,

Não há poesia no fascismo,

Para que o passado não vire o nosso futuro,

Ditadura, nunca mais!

 Herbert Lago Castelo Branco

Poeta e escritor