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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O CIRCO


Quando o circo chegava na cidade de Chapadinha era um alvoroço só. Era interessante ver a lona subir. Uma mágica. As cores vermelha, azul e branca da lona, enfeitada com bandeiras, se impunha na praça São Raimundo. Um cercado de arame farpado, o carro da bilheteria, as tabuletas. O que acontecia lá dentro era um mistério que só seria desvendado na noite de estréia. No dia D o palhaço comandava na divulgação nas ruas da cidade anunciando o espetáculo. Um coro de crianças seguia o cortejo respondendo ao que o palhaço gritava no megafone:- Hoje tem espetáculo?- Tem, sim senhor.- E o palhaço. O quê é?- Ladrão de mulher. - Eu vou alí e volto já? - Vou comer maracujá. - Pipoca amendoin torrado? - Carreguei tua mãe num carrinho quebrado. - Duas pimenta não dá um molho? - Cabeça de negro só tem piôlho. - Virei a aba do meu chapéu? - Mulher buchuda não vai pro céu. E por aí íamos nós respondendo o que fora ensaiado rapidamente. Quando retornávamos da maratona, seguindo o palhaço em suas pernas de pau, recebíamos um carimbo de tinta azul no braço. Era a garantia de entrar de graça à noite. O maior desafio era tomar o banho sem tirar a tinta do braço. Sem ela não tinha o passaporte da estréia. E aquela era uma noite importante. A grande hora chegava com a noite. A bandinha na porta do circo, o pipoqueiro, o algodão doce. Lembro que entrei maravilhado depois de ter mostrado o meu carimbo. Lá dentro era a magia. Aquela lona azul com estrelas pintada era um céu de fantasia. As cordas, os trapézios, o picadeiro e o palco com a cortina fechada, já diziam que aconteceria o espetacular. Primeiro, o dono do circo, de fraque e cartola, anunciava o espetáculo. Dois palhaços já faziam uma cena pra chamar atenção e disfarçar a entrada do malabarista e da bailarina equilibrista. Quanta beleza nos gestos e perícia no equilíbrio. Os palhaços de novo. A gente ria das besteiras. O picadeiro recebia o leão e o domador dentro de uma jaula. Coragem do homem que, com um chicote, fazia o leão sentar e a onça atravessar um arco. A banda tocava uma música que anunciava a coragem e a tensão. Os palhaços voltavam enquanto o picadeiro era esvaziado. Os palhaços faziam a continuidade do espetáculo para não ter interrupção. O elefante entrava no picadeiro para se equilibrar numa pequena base sobre um cone. Depois sentava e fazia contas com as patas seguindo as ordens do domador. Os palhaços voltavam. Daí faziam um número maior com um calhambeque e macacos no palco e faziam estripulias de causar inveja ao equilibrista. Parecia que ele caprichava pra errar e pra ficar engraçado. Quando este número acabava, tambores anunciavam o momento de maior tensão. Os refletores se voltavam para o céu de lona. Os trapezistas já estavam a postos. A gente ficava com o coração pequeno nos saltos. E os olhos acompanhavam a trapezista que mudava de mãos dos trapezistas como se tivesse asas. A música aumentava a tensão e o duplo mortal acontecia no momento em que corações da platéia saltavam pela boca. Na emoção crescente que vinha acontecendo ficávamos aliviados com o intervalo. A segunda parte do espetáculo era o que chamávamos de "Drama". Um teatro popular era dramatizado no palco pela bailarina, trapezistas e palhaços que viravam atores. O "Coração Materno" de Vicente Celestino foi pra mim um "Drama" inesquecível. Uma tragédia no palco em que o coração da mãe era oferecido à amada. Aquilo me marcou a alma. A magia tinha chegado ao ápice na tragédia. Fui pra casa e não dormi naquela noite. No dia seguinte a vida seguia morna. Mas a convulsão do circo era inesquecível...

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